segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

SECA



Nessa secura danada
De um dezembro agostino
Vejo apenas nuvens claras
Nada de chuva, Severino

Pedra verde
verdes campos
Hoje secos
desencantos

Fico aqui a perguntar
Onde foram
as amoreiras
os hibiscos
e o canto das sabiás?

Nessa secura de vida
De um sombrio eterno agosto
Vejo o rio tão minguado
Que tristeza, que desgosto

Na espera de chuvas fartas
D'água espero sem demora
Pra curar a ferida minha
E a rachadura desse solo

Que secura danada




quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Vou-me embora de Pasárgada





Vou-me embora de Pasárgada
Nada pude aqui fazer
Mesmo sendo amigo do rei
De nada pude exercer
Tenho medo dessa lei
Da poesia que estou por escrever.

Vou antes que anoiteça
Ante mesmo o sol terminar
Levo comigo o verso meu
No peito o eterno amar
Nada em mim feneceu
Vou-me antes do desamar.

Há em minh’alma desolação
Um sabor estranho nos lábios
Passei muito tempo aqui
Já não entendo os ditos sábios
Devo ir... antes estar no ali
Do que ficar nesse balneário

De Pasárgada devo tudo
Do incerto ao mais puro
Da luz que me clareia
Devo, jamais esconjuro
O sangue que corre nas veias
E da poesia que faço uso.

Não me deitei em camas ricas
Nem beijei a face amada
Fiz apenas o que deu na telha
Agora ponho o pé na estrada
Deixo pr’atrás mansa ovelha
Que fui em terras de Pasárgada.

Vou-me embora daqui
Antes mesmo do Sol nascer
Sigo rumo a minha casa
Lá eu posso escrever
Sendo livre das amarras
Pra realmente sentir o viver.

Pasárgada beijos meus
Deixo a ti meu coração
Vou-me agora taciturno
Fazendo minha própria canção
Antes mesmo do raiar noturno
Devo seguir na contra-mão.

Vou-me embora de Pasárgada...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

FLORES


Há algo de errado em admirá-las?
É pecado dizer que se ama as cores?
As formas?
A maneira como surgem?

Quando criança
As roupas pequenas
São bordadas com flores
Sempre-vivas, margaridas, girassóis.

Quando se ama
Presenteia-se os amores
Rosas
Amarelas, brancas, vermelhas
Todas botões
Calores aos milhões

Há algo de errado com as flores?
Com aquele que por elas verseja?

Na fé
Altares são floridos
Pétalas mil
Folhagens aos pés dos santos
Nos cantos, no louvor
Crisântemos, lírios, copos-de-leite
Em nome do amor.

E se os olhos se calam para o mundo
Dormindo o sono dos que se vão
Deitados e cobertos
Ornamentados pela paixão
A sepultura levamos
Flores... ameniza solidão

É certo que estão
Na frente de cada casa
Nos vasos
Nos lados
Na vida dos que ainda a veem

Há algo de errado nisso?
Flores...
Rima com calores
Sabores
E amores


E não há nada de errado nisso.

DICIONÁRIO


Meu amor aconteceu
Quando passei
Os primeiros olhares por ele
E ele majestoso em seu porte
Mostrou-me mil palavras
Depois, vieram dez mil

Significados...

ARABUTAN


Em meu sangue
A memória ainda existe
A vitória ainda é triste
Quando penso
Lembro
Do passado antes dos grandes barcos
De além mar

Era tempo glorioso
O medo era apenas de suçuarana
Na mata o verde era...
Ainda é, esperança
No meu cantar

Memória da terra sambaqui
Da festa
Da rede
Do meu povo tupi

E aí veio em grandes velas
O homem vestido de ferro
Trouxe a cruz para nossas costas
E a morte fez de nós
Fermento na terra que chamávamos de mãe

Andávamos com a lua
Dormíamos com as estrelas
Agradecíamos Tupã

Lembra?
Não pode esquecer
Do muiraquitã
Dos Carajás
Tupinambás
Do seu povo antes do amanhã

Em meu sangue
Ainda escrito está
A memória jamais esquecida
Do avô do avô de meu avô
Para o filho do filho de meu filho
Que um dia irá falar
E lembrar
O começo de Pindorama.

DESESPERANÇA


Meu verso é sujeito de mim
Sabe o que me dói?

Não é a fala
Nem é a escrita
Nem é a poesia
Dos versos seus

É a indiferença
Da ausência
Que fica marcada
Nos versos meus

Jogo letras amigas
Passo cor em um pensar
Deixo uma questão
Na esperança de retornar
Mas,
Nada mais
Apenas silêncio a me purgar

Fiz algo de errado?
Falei das corujas e da fé
Fui mau interpretado
Julgado
Ou apenas excluído
Por ser o que se é

Estou sentido
Com o vazio que me é lançado
Diante dos pés

Aprendi a ser poeta
E como tal,
O sentir em mim ficou aguçado
E quando não me dão mais ouvidos
Fico sujeito de mim
Assim,
Banal
Com olhos caídos
E coração sepultado.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

TRISTEZA


A minha letra
É tão negra
Que não sei
Escrever outra
Coisa
Que não seja
Desvalia
Tristeza
E dor

Qual vida
Essa a minha
Que mesmo
Diante de tanta
Poesia
Só vejo
Mesmo
Desamor

Belas são as flores
Do campo
A florir
Livre é a música
Da saracura
E veja que espanto
Os meus olhos
Nem estrelas
Mais vê
De tal gosto
Perdera
O sabor

Em um canto
De desencanto
Estou
Lampejos de vida
Poesias
Alegrias
Que não mais tenho
Qual fera feriu
Minh’ alma
Que agora
Jaz fria
Sem

cor

Tentativa



Evito a noite e todas as estrelas
Lindas estrelas a tilintar
Finjo não ver as primeiras flores
Nascidas livres nos campos de Minas
Escondo-me das borboletas de mil cores
Que leves bailam na alvorada da curta vida
Deixo o azul do céu sem meu olhar tocar
E escureço as pupilas com lágrimas frias
Tampo os ouvidos para não escutar o sabiá
Que de manhã acende o dia
Apago as letras dos versos escritos
Aqui, ali e no entardecer daqueles poemas beijados
Escapo do Sol do meio-dia e do vento que quer me beijar
Sem de fato eu aceitar tal flerte
Tento não perceber o perfume das laranjeiras em flor
Que dos laranjais exalam a me castigar
Não dou valia as folhas das árvores
que dançam sinuosas para mim
Até da saracura três-potes
deixo de assistir seu concerto matinal
Recuso reconhecer o sabor das delícias à mesa
Generosamente postas a meu deleite
Não me refresco com as águas das chuvas de primavera
Nem com as tormentas exageradas do pré-verão

Excluso
Tento em vão
Lhe esquecer.