quinta-feira, 19 de setembro de 2013

LUA



Lua
Naquele dia
Não pude
Lhe ver

O céu
Era
cravejado
De estrelas
nuas
E eu
Feliz versejava
Pela rua
E não lhe vi
Nascer

Tão bela
Poesia
Daquela
Noite
Sem Lua
Que do céu
Não vi
Juro!
Não vi
Entardecer

Perdoe-me
Oh Lua
Pela desatenção
Naquele bendito dia
Estava eu
A amar
Mas hoje
A fenecer.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

SARACURA TRÊS-POTES


Era de manhã
Saracura acorda
Não sabe se
É luz
Ou escuridão

Canta a cura
Mas não sara
A solidão

Foi descuido
Não sabia
Que a sua vida
Era pote
Três lindos potes
Distração

__Quebrei três potes!
Lamentava aos berros
Ave do brejo
Três potes
Três potes
Em vão

Do outro canto
Do dia
Ainda turvo
Ainda triste
Perguntava a si mesma:
__Quantos, quantos?
Coração.

Três potes
Quebrei três potes
Quebrei três
Potes
Potes
Potes
Por distração!

Desse dia em diante
Saracura
Passou a cantar
Antes do dia
Antes da noite
Os três potes
De sua sina
Canção.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

SEM AMOR



Por que amar?
Amar é sofrer
Jamais é viver
E amamos...
Como somos bobos ao amar

Pudera nascermos
Da máquina
Da fusão do não amor
Jamais saberíamos
Significado de dor

Ao lhe ver
Não haveria lágrima
Nem sorriso
Nem coração em batucada dentro do peito
Por você a bater

Seria tão mais fácil, sem o tal amor
As manhãs seriam as mesmas
Os jardins os mesmos
As tardes apenas tardes nada mais

E a saudade? Onde ficaria?
Não existiria no dicionário de nenhum povo
Todos caminhariam
O mesmo percurso
Sem sofrer
Sem muito querer
Sem nada no peito
Apenas no bolso
Os réis dessa vida bendita
que será sem o amor

Pense: a música sem acordes
animaria nossos ouvidos iguais
nada de ancestral em nós
nada de coisa alguma
de amar e desamar

No mundo sem amor
Seríamos paz.

Pense: porque existe o amor?
Só para fazer sofrer
O ensaguentado coração
Em pura dor
Que ferido sofre
Perenemente
Por você.

Sem amor
A vida seria mais fácil
E até mesmo a flor
Não mais cobiçada
Não seria colhida
Para o frio fim
Do corpo
Fadado
A amar.

PAIXÃO



Há um desprazer
Des-sentido
Impune dentro do ser
Algo atroz
Que fere a letra
Que sequestra a alma
Que incendeia o nome.
Dizem ser paixão
E que tudo é bonito
E que na ávida vida
No amor se refaz
Se contradiz
Se impulsiona
Se sente.
Paixão é o seu nome
Que consome
E destrói
Que constrói
Que cega
Que se despedaça
No infinito sonho
De um dia ter ao seu lado
O amor de outrora

Cometer erros é fatal
Não aceita a humanidade
Não permite o volta atrás
Não se compadece
Nem se importa
Nem abre a porta
Ao passar.
Entra arrombando
Assaltando
E assassinando as mesmices
Os dias, a Lua, as estrelas
Faz-se presente no peito
Enquanto envenena
Com doces palavras
A poesia de cada amanhecer.
É a pior das doenças
A mais temível dor
Pois dilacera aos poucos
Corrói o coração
Arranca-lhe os tuns
Silencia os olhos
E devasta o amanhã.

Ofertam comida
Não há fome
Se tem sede
Não se pode beber
Se deita
Não dorme
Se acorda
Não sonha
Se ama
Euteamo é insignificante
E toda a amação
Nada importa
Nada existe
Nada pôde
E se insiste
Perde a razão
A face
O seu ser.

Paixão
Este é o seu nome
Maldita entre todas as flores
Maldita entre todas as letras mais doces
Maldita entre as alturas.

Foge se puder
Esconda seus passos
Nunca beba da paixão
Senão
Quando não mais puder
Sucumbirá
Feito fruta madura
Que cai
Que se esvai
Que se perde

Ao des-sabor do não-viver.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Chuvarada



Chovendo em mim
Em Minas ainda chove...
Lágrimas descendo montanha abaixo
E eu, na minha sede de escrever
Escrevo geografias
E mapas pequenos
Sem rosas
Sem ventos
Desvendando o Brasil em regiões
Compartimentado
Tais distâncias
Molhadas
Das águas dessa chuvarada

Chuva
Chuviscos
Chuvosos
Encharcados
Chovem lágrimas
Que lavam a alma
Do poeta
Que chora
Chuvaradas
Na beira
De sua estrada.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Ventania



O vento que sopra os mundos
Que sopra a vida
Que sopra a terra
É o mesmo vento do ano passado
Do ano anterior
Dos dias de 1980

Vento que sopra tudo
Que traz cheiro conhecido
Dos tempos vividos
Das vidas chorosas
Da lágrima ainda fria
Da água primeira de dezembro

Sopra esse vento a minha vista
O meu horizonte
A minha amação
A poeira da estrada distante
Dos dias mornos de pré-verão

Vento que craveja o céu de estrelas
Que vem do Sul
Do Oeste
E daquela direção
Onde lanço meu olhar
Onde fica minha lembrança
Onde o vento nasce
E lá faz ventar
As árvores
As flores
As aves
Os livros
Os impossíveis sonhos
Que não amanhecerão

Vento esse
Que vem
Que sopra
Que beija
Que chega
E que se vai
Enquanto a’lma
Aqui em mim fica
E o que fica
É essa contínua
Sempre
Solidão.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Sem primavera


Sou como a árvore que estica seus galhos ao céu. Imploro pela primavera e oferto mil folhas ao vento. Não sou ouvido. Me calo frente ao frio e deixo que as formigas vaguem por mim. Sou eu que vago pelo obscuro mundo de onde todos os demônios deixam suas garras afiadas apontadas à minha loucura. Espero ansioso pela primeira chuva de setembro, enquanto arde em mim as feridas dos invernos que demoram a passar e me devoram enquanto vivo. Qual destino esse meu: ser como a árvore seca a lançar olhares laicos ao firmamento e sem esperança alguma fingir acreditar no dia seguinte. O silêncio toma conta, e o vazio feito fonte rio e mar... se expande, se alastra. Do contrário, eu, me ligo a um galho onde só a primavera tardia é testemunha do que digo, do que sinto e que nem mesmo as flores são capazes de colorir.