domingo, 15 de abril de 2012

Cativeiro já acabou

(http://www.uniblog.com.br/nacoeseaculturadacor/)

Grilhões
Correntes
E charcos

Quando o céu estiver em seu mais alto ponto
E as nuvens da tirania estiverem dissipadas
Eu em um gemido de século
De história e de força
Louvarei em meu altar os deuses bantos

Não haverá conto de povo oprimido
Nem irmão querendo o sangue derramado de seu vizinho
Pois é momento de nova era
É ausência de dor nos caldeirões da fazenda

Dos tumbeiros construídos pra desgraçar minha família
Farei esteios e bases de lembranças
Das amarras e ferros em brasa que feriram nossa carne
Serão erguidos pilares e monumentos pra que jamais se esqueçam de suas atrocidades

Nada de esconder sob o véu tosco do passado ou da história mal contada
Nada de fingimentos ou lamentos por um tempo sem glória
É necessário muito mais que tratados
É necessário muito mais do que entendimentos
Quero meu lugar
À mesa da igualdade!

Desmascare de sua face todo ar de racismo
Tire de sua garganta a voz dos avós
E fale em bom som, no mais estridente que puder
O quanto em suas veias corre o rubro líquido de África
O mais salgado de todos os chicotes
O mais amargo de todos os açúcares
O mais negro de todos os cafés
Livre-se de toda falsidade criada em sua mente
Pois você, filho desse Brasil descendente
É parte de meu povo
É o meu próprio povo
Em cada esquina, apartamento e senzala.

sábado, 14 de abril de 2012

Caixa de Pandora

(Pedra da Loba. Fotografia: Victor Said)


Havia um monte distante
No topo uma mesa
Não há mais.

Havia braços dados
Uma dança sem pretensão
Que acabou na palavra jamais.

Havia um Sol radiante
Comidas e bebidas e gentes
Por que não há mais?

Pra onde foi o sonho?
Onde começou o fim?
De que serve o nunca mais?

Havia sorrisos e crenças
Lutas e lamentos e união
Pra onde foram?

Havia laços e sinaleiras
Bruxos e poetas trajando ternos
Faceiros irmãos!

Havia significado no comum
Um verso leve, outro interno
Milhares em um!

Eu sentia felicidade
Sentia liberdade
E sonhei sob o monte...

Contudo, abriu-se a caixa
Ranger de dentes
Dor e separação...

Vejo a mesa vazia
O verso sem vida
Uma tarde sem dia.

Vejo escuras nuvens
Raios e palavras morrendo
O laço partido.

Uma caixa aberta
O maldito segredo de Pandora
Libertos mil demônios enfurecidos.

Toda letra foi esmagada
A mesa devastada
Não há mais, poesia.

Não vejo mais,
Nem o monte
Nem a paz.

Com a caixa aberta
O monte ruiu e a mesa
Não mais existe.

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Este poema foi escrito logo após um conflito entre grandes pensadores e poetas com os quais eu convivi durante um tempo. Nem sempre as ideias são as mesmas e diante da fatalidade de sermos falhos e humanos, as perdas são inevitáveis. Contudo, fica a poesia e a lembrança do tempo em que os versos eram comuns.