segunda-feira, 19 de março de 2012

Engenho

(Mão e Lua. Fotografia: Victor Said)
O trabalho no inferno doce
É um constante não-morrer
Reviramos a cana
Nos tachos do eterno sofrer


Nos tornamos lenha,
Quando não podemos mais rastejar
Queimamos os lábios
Na acesa e doce fornalha do amargar


O animal que leva a corda
Que arrasa e arrasta o som
Berra por um gole d’água
Suplica pra morrer
E em cada chicotada
Vira o tacho da garapa
No escravo ato de moer


Escorre o caldo
Dia e noite
Até o branco vir
Até o doce açúcar surgir
E adoçar a boca suja
Da dita sofisticada mão cristã
Do outro lado do grande mar.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Sótão de Guardados

(http://www.gazoniblog.com)

Na busca pelo saber
Adentro o sótão
Onde guardo
O passado
As feridas antigas
As alegrias vividas
E a lembrança nunca esquecida

Entre poeira
Caixas imaginárias
Arquivos mortos
Vivos espelhos
Cobertos pelo lençol da vida
Encontro-me
Entre os guardados

Aranhas
Belas envoltas
Em seus bordados
Tecem comigo
A teia já marcada
Na alma
Da minha poesia

É um sótão sempre visitado
Onde velhos versos
Amarelados e degustados
Pelas traças
Num apetite desvairado
Ainda revelam
O pouco que sei
De mim

Tantas ideologias vestidas
Blusas e caras pintadas
Mãos em prece
Na fotografia
Na fila da comunhão
No tempo
Em que se acreditava

Caixas ainda novas
Vazias de alentos
Desalentos
A espera
Pelos guardados
Da vida
De um poeta.