segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Mula Sem Cabeça

(Sala Azul. Foto: Menino Edgar)

Oh dias sem fim
Oh vida que custa a passar
Diga simples assim
O que devo fazer pra desamar?

Pudera eu sair ao vento
Ir longe em terras Gerais
Deixar livre meu pensamento
E não sofrer com a palavra “jamais”

Fosse eu capaz de ser gente
De vestir-me de normalidades
Seria mais um ser incoerente
Contudo, seria parte da humanidade

Sou desde que tenho entendimento
O mais velho velho desse grotão
Ainda jovem na figura do momento
Sempre por dentro pura solidão

Oh dias de existência comum
Aos olhos do homem da razão
Não podem me ver, pois sou incomum
Dentro e fora do coração.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Arabutan

(Pau-brasil. Foto: Victor Said)

Em meu sangue
A memória ainda existe
A vitória ainda é triste
Quando penso
Lembro
Do passado antes dos grandes barcos
De além mar

Era tempo glorioso
O medo era apenas de suçuarana
Na mata o verde era...
Ainda é, esperança
No meu cantar

Memória da terra sambaqui
Da festa
Da rede
Do meu povo tupi

E aí veio em grandes velas
O homem vestido de ferro
Trouxe a cruz para nossas costas
E a morte fez de nós
Fermento na terra que chamávamos de mãe

Andávamos com a lua
Dormíamos com as estrelas
Agradecíamos Tupã

Lembra?
Não pode esquecer
Do muiraquitã
Dos Carajás
Tupinambás
Do seu povo antes do amanhã

Em meu sangue
Ainda escrito está
A memória jamais esquecida
Do avô do avô de meu avô
Para o filho do filho de meu filho
Que um dia irá falar
E lembrar
O começo de Pindorama.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Voo no pensar

(Lírio Azul. Foto: Victor Said)

Meus dedos
não acompanham
meus pensamentos,
não sei qual é mais rápido.

Escrevo e corro
Voo...
E cair é sempre uma dádiva
Mergulho fundo
No pensar
No refletir
No tentar entender.

Entender...

Às vezes sinto que compreendo
Por outras só sinto
e fico em silêncio

Já meus dedos não,
ávidos pr'acariciar as letras
abandonam as convenções
as regras
e os acordos ortográficos

O pensamento é luz
não entende de velocidade
vai longe e volta na mesma
intensidade

e eu...
tento sentir
e satisfazer a compreensão.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O vento e suas peraltices

(Bairro Can Can. Foto: Kamlóvsky)

É um vale este lugar
Têm pedra grande
Do tamanho do amor
De sua gente
De ruas novas e olhares antigos
E na frente de cada janela
Um lar, um abrigo

Dias atrás
Vento soprou forte por lá
Veio da serra
Levantou telhado
Silenciou três árvores
Assustou com seu sopro
Aquela terra e o manacá

Depois da confusão armada
Portas escancaradas
Rostos assustados
Seu povo,
De coração na mão
Levantou-se num sorriso
E deu-se as mãos
E com os braços armados de união
Colocou no lugar
O que o vento usou para brincar.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ora pro nobis

(Entardecer em Minas. Foto: Victor Said)
Senhor e Senhora, peço licença no falar
Sou pobre mendigo analfabeto de fé
Nem sei ao certo no que acreditar
Só sei da dor do calo forjado na sola do meu pé

Conheço todas as pedras do caminho
Elas é que marcam em mim a lida nas estradas
E pouco sei da vida abastada e dos cálices de vinho
Sou filho pobre que anda em muitas jornadas

Meu único legado é a liberdade
Cantada em meu verso maltratado
Busco constantemente a verdade
Pois quero saber o sentido de cada passo dado

Ergo meus olhos ao céu
Derrubo olhares ao abismo
Procuro no alto o doce e o fel
Reviro o fundo do meu próprio destino

Não vejo altares divinos
Nem sei distinguir o discurso santo ou profano
Mas sei das coisas que vivo repetindo
Senhor e Senhora, sou apenas menino, errante e humano

Não posso pedir perdão
Por aquilo que não sei
Mas posso mostrar-lhes minha mão
Com linhas e caminhos diferentes do rei

Pobre poeta mineiro eu sou
Sem eira nem beira, mas com amor a poesia
Mas quem sabe um dia diante de tudo que se falou
Posso estar ao lado do homem que cumpriu a profecia


E nesse dia não quero privilégio
Nem festa nem flores em aclamação
Quero apenas a face livre de mistério
Peito aberto expondo o real amor do coração.

(Flor da Orapronnobis. Fonte: internet)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Ao meu velho camarada Maiakóvski

(Sem Título. Fonte: internet)

Eles chegaram pela espada
Assassinaram a luz
Impuseram a fé no martelo
E com a foice
Extirparam sete décadas
Das gerações
Dos muitos milhões
De camaradas. 

Um Pensamento

(Noite. Fonte: Internet)

É preciso se decepcionar para poder perceber o quão somos presas fáceis de nossos desejos e sonhos. Se não houver decepção não há verdade a ser revelada.

sábado, 14 de janeiro de 2012

BRASÓPOLIS

(Crepúsculo. Foto: Kamlóvsky)
Tenho uma predileção absurda por esse lugar. E ele nem é tão bonito assim, nem tão bem tratado ou de grandes monumentos e riquezas. Seu povo nem sempre sabe o valor dessa morada. Mas eu tenho, isso eu confesso, uma predileção do tamanho do Sol por esse lugar. Talvez seja pelo simples fato de ser o meu lugar nesse mundo.

Nada a Declarar

Todo poema que escrevo
Ou que finjo escrever
Carrega em seus versos
Uma ferida minha
Sou eu o meu próprio juiz
E com a condenação em punho
Deixo escorrer entre os dedos
Os mais sangrentos álibis
Decapitados.


Há por aí um puritanismo falsificado
Há um filho de Abraão a me seduzir com suas ideias antigas
Há um guarda que desprotege da chuva fria e das desgraças
E por fim, há em mim um desejo descomunal de assumir o primeiro raio de luz que pari com as dores de uma manhã qualquer .


Não construí nenhum palácio de letras
Nem escrevi no concreto e no mármore minha obra prima
Muito menos fiz de meus pensamentos estandarte divino e puro
(Mariposas Negras. Fonte: Internet)
Quando adentro o sagrado solo da imaginação
Tiro meus sapatos brilhantes e com pés nus
maculo aos passos o recinto santo e sórdido da alma atormentada 
que levo sobre as costas


Meus sapatos insignificantes e devassos são postos fora
Orientalmente colocados um ao lado do outro em posição contrária
Enquanto isso escuto das profundezas a grande ópera Carmem
Que engasga e engana sedutoramente meus ouvidos 
E por milagre faz bater surdamente o órgão cardíaco e já quase morto


Todo poema que escrevo
Ou que finjo escrever
Carrega as minhas marcas por esse verão interminável
Por essas vias tão incomuns aos meus olhos
Sem vida
Sem poesia
Sem nada a declarar.