sábado, 30 de julho de 2011

Quem inventou toda a escuridão?





Primeiro me promete o amor

Depois a promessa de me proteger

No seu mais puro euteamo

Mas aí quando eu achei tudo certo

Quando pensei em voar

Fez-se o silêncio

E eu vestido de imprudências

Contrário aos avisos dos amigos

Me deitei na ilusão

Cravei poesias contrárias

No caminho que eu tracei

Onde estava você?

Nas flores, no rio, no cantar do bem-te-vi

E eu vi! Vi tudo menos eu



O euteamo se escondeu

O amor se quebrou

A escuridão me foi lançada

Os jardins queimados

Nada mais a brotar



Qual tempo foi esse?

Não pode haver só tristeza

Nem lágrimas de amor

Somente dor dor e dor



Há de passar esses dias

Há de brilhar o Sol amanhã

E apesar de tudo

Eu vou estar aqui

Sobrevivendo em minha poesia.

quarta-feira, 27 de julho de 2011


Tem dias que a poesia em mim levanta meio tristonha, cambeta das ideias e fraca para qualquer verso. Fica parada miúda no canto de cada canto de minha casa. Se saio ela vem comigo com o olhar baixo e resmungando por não saber se entrosar no versejar das saracuras e na melodia social das primeiras sabiás que cantam o amanhecer. Arrasto-a pelas mãos, balanço com ela nos galhos mais altos da ameixeira, mostro o pessegueiro em flor e tento a todo custo fazer se alegrar com o barulhinho da bica que corre no fundo do quintal. Até as borboletas se compadecem de meu esforço e fazem acrobacias poéticas para alegrá-la. Tudo em vão. Quando a poesia levanta assim, de cara virada para mim, as letras custam a escrever sua história.

domingo, 24 de julho de 2011


Quando meu vô ficou caduco esqueceu das coisas que aconteciam no agora e só lembrava do que fora no ontem. Desde que me conheço por gente, via meu vô velho. Depois da caduquice, vi ele criança. Meu vô era religioso de botar terço nas mãos e nos fazer rezar as ave-marias até o fim. Depois que ele incriançou, ensinou a todos nós a falar as línguas das aves, da rebeldia e a dançar sem música de corda. Acho que quando meu vô caducou, ficou foi é livre.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Vou-me embora de Pasárgada



Vou-me embora de Pasárgada
Nada pude aqui fazer
Mesmo sendo amigo do rei
De nada pude exercer
Tenho medo dessa lei
Da poesia que estou por escrever.

Vou antes que anoiteça
Ante mesmo o sol terminar
Levo comigo o verso meu
No peito o eterno amar
Nada em mim feneceu
Vou-me antes do desamar.

Há em minh’alma desolação
Um sabor estranho nos lábios
Passei muito tempo aqui
Já não entendo os ditos sábios
Devo ir... antes estar no ali
Do que ficar nesse balneário

De Pasárgada devo tudo
Do incerto ao mais puro
Da luz que me clareia
Devo, jamais esconjuro
O sangue que corre nas veias
E da poesia que faço uso.

Não me deitei em camas ricas
Nem beijei a face amada
Fiz apenas o que deu na telha
Agora ponho o pé na estrada
Deixo pr’atrás mansa ovelha
Que fui em terras de Pasárgada.

Vou-me embora daqui
Antes mesmo do Sol nascer
Sigo rumo a minha casa
Lá eu posso escrever
Sendo livre das amarras
Pra realmente sentir o viver.

Pasárgada beijos meus
Deixo a ti meu coração
Vou-me agora taciturno
Fazendo minha própria canção
Antes mesmo do raiar noturno
Devo seguir na contra-mão.

Vou-me embora de Pasárgada...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Coisificando


A intolerância
O racismo
E a discriminação
Copularam.

A destruição
O sofrimento
A ignorância
Frutificaram.

Por um Deus
Por um Estado
Por um conceito
Assassinaram.

E o que restou?
E o que foi válido?
E o que adiantou?

domingo, 3 de julho de 2011

Quando as formigas falam



Tenho em mim a natureza das simplicidades e a língua das coisas comuns. Não sei muito bem definir o sabor do asfalto ou o duro gosto pelo cimento seguido de concreto, mas sei distinguir e entender a linguagem das pedras e das flores. Tenho sempre um diálogo com formigas, saracuras e borboletas. Seres esses que dizem muito em seus infindáveis meios de comunicação. Por exemplo: antes mesmo de se noticiar o inverno frio desse ano de 2011, as formigas em suas carreiras e árduo trabalho me disseram que faria um frio recorde que seria registrado em escalas negativas em todo o Brasil e principalmente aqui, onde vivo. No final de março, todas elas, ainda sob o som das cigarras, estavam trabalhando noite e dia. Geralmente as formigas trabalham a noite, para evitar qualquer contato com sabiás e bem-te-vis, mas dessa vez elas estavam fazendo hora extra. Cortavam insanamente todas as folhas, flores e brotos da roseira, e até das daninhas e das onze-horas. Até aí tudo bem, elas me diziam com aquele ininterrupto trabalho que o frio das geadas espessas estava por vir. Mas o que mais me surpreendeu foi quando, nas últimas águas de Março, quando todos os seres menores se escondem para fugir da chuva, elas, as formigas estavam dedicadíssimas no ofício de derrubar o verde das plantas e a custo de muitas vidas das cortadeiras que eram levadas pela enxurrada. Gritavam em um silêncio de criaturas simples o que estava por vir. Pronto! Confirmaram tudo para mim naquele dia: que o inverno mais rigoroso que eu já havia presenciado nos abateria. 

Pedaço d'alma

(Noite, fonte: internet)

Quando se quer algo
Se deseja do fundo do coração
Se nega todas as mesmices
Se vai longe...

Dirá que é paixão
Dirá que é loucura
Dirá que poderá não valer a pena
Dirá tantas coisas...

Então nada mais importa
O dia vira noite
A noite vira eternidade
O tempo se esvai...

O que dizer agora?
Quem irá me proteger?
Quais medos lhe assustam?
Qual verdade é mais doce?

Eu vou...
Em um voo só
Voando depois do meio-dia
Chegando antes da hora
E com o coração a mil
Desejando o seu abraço

Deixarei vales
Conceitos
Estabilidades
E passos de minha história

Num beijo de desequilíbrio
Num lapso de realização
Num sopro de sudoeste
Eu vou

Em um voo só
Mas não mais sozinho
Junto ao pedaço de alma
Que me faltava.

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Há  algo que precisa ser dito sobre esse poema: foi escrito durante um período de intensa paixão, ilusão e sonho. Imaginei que eu poderia ter ido ao encontro de um grande amor, mas antes mesmo de se concretizar o sonho, ele, o amor, esvaiu-se pelos vãos dos dedos e nada pôde ser feito. Então, ficaram esses pequenos versos, testemunhas de um sonho, da paixão mais avassaladora que tive. A alma ainda está em pedaços, como o coração.